Dieggo Santos
← Blog

Gastronomia ·

Um domingo, um desvio e o tipo de lugar que faz a gente desacelerar

Um desvio até Piracaia nos levou ao Três Josés, um restaurante cercado por natureza e com uma paisagem de tirar o fôlego. Entre sabores, detalhes e um atendimento acolhedor, o almoço acabou sendo uma das grandes surpresas desse domingo.

· 5 min

Foto da resenha: Um domingo, um desvio e o tipo de lugar que faz a gente desacelerar

Resumo rápido

  • Um desvio de rota transformou um almoço de aniversário em uma viagem inesperada até Piracaia.
  • No Três Josés, a paisagem cinematográfica divide o protagonismo com uma experiência gastronômica sofisticada.
  • Entre elogios, pontos de atenção e um atendimento receptivo, o dia terminou como aqueles domingos que viram memória.

Hoje é domingo, 16 de agosto.

E talvez todo domingo tenha aquela promessa silenciosa de que o dia vai ser tranquilo. Um almoço, uma conversa demorada, alguma coisa gostosa para comer e, quem sabe, uma história nova para guardar.

Hoje também era aniversário do meu amigo Evandro.

O plano original era simples: sair, comemorar e almoçar em um restaurante em Arujá. Mas planos, como quase tudo que realmente vale a pena na vida, às vezes ficam melhores quando dão errado.

No meio do caminho, Evandro decidiu mudar a rota.

— Vamos para Piracaia. Quero mostrar um lugar para vocês.

E foi assim que um almoço de aniversário virou uma pequena viagem.

O caminho até lá já começava a entregar o que nos esperava. Natureza de todos os lados, estrada cercada de verde, aquele tipo de paisagem que parece diminuir o volume do mundo. Quanto mais a gente avançava, mais a cidade ficava para trás e mais a sensação era de que estávamos indo para algum lugar onde o tempo passava um pouco mais devagar.

Até que chegamos ao Três Josés.

E aí eu entendi o motivo do desvio.

O lugar é daqueles que não precisam fazer muito esforço para impressionar.

IMG 3978
Vista do Restaurante Três Josés

O restaurante fica diante de uma paisagem absurda, com um lago que parece ter sido colocado ali justamente para completar a cena. É bonito de um jeito quase cinematográfico. O espaço tem uma arquitetura mais sofisticada, mas sem perder aquela sensação gostosa de estar cercado pela natureza.

É o tipo de lugar que funciona para várias versões da vida.

Uma família reunida em volta da mesa. Um casal querendo passar algumas horas longe da rotina. Um aniversário. Uma hospedagem de fim de semana. Ou simplesmente aquele domingo em que você decide que merece almoçar olhando para uma paisagem bonita.

É também uma pousada. E, olhando tudo aquilo, fica fácil entender por quê.

É difícil não pensar: eu poderia passar um fim de semana inteiro aqui.

Estávamos em quatro: eu, Evandro, Roberta e meu marido, Gino. Sentamos, olhamos o cardápio e começamos aquela negociação clássica de quem está em grupo: pedir coisas diferentes, compartilhar tudo e sair da mesa com a sensação de que experimentou o restaurante inteiro.

Escolhemos dois pratos.

87aada04 2a1e 46bb ae37 896dd13513d4
Parmegiana de carne bovina

O Escondidinho de Salmão, e a Parmegiana de Carne Bovina, que serve de duas a três pessoas.

E aqui começa a parte em que eu gosto de separar experiência de expectativa.

O Escondidinho chegou um pouco mais seco do que eu esperava. É compreensível que preparações que vão ao forno percam parte da umidade durante o processo, mas, para mim, faltou um pouco daquela cremosidade que faz um escondidinho ser exatamente aquilo que promete ser.

Só que havia um pequeno herói sobre a mesa.

O azeite.

E que azeite.

Daqueles que você coloca um pouco no prato e pensa: pronto, agora conversamos.

Ele funcionou muito bem tanto no escondidinho quanto na parmegiana e acabou equilibrando bastante a experiência.

A parmegiana, por outro lado, tinha um problema mais pontual: em algumas partes, a espessura da carne estava maior do que em outras. E isso fez diferença no ponto. Justamente o pedaço que peguei estava mais grosso e, consequentemente, chegou bem malpassado.

Não digo isso como uma crítica para diminuir o restaurante. Muito pelo contrário.

Quando um lugar trabalha com uma proposta mais sofisticada e com pratos nessa faixa de preço, pequenos detalhes de padronização começam a importar bastante. Uma espessura mais uniforme da carne, por exemplo, ajuda a garantir que todos os pedaços tenham o mesmo ponto e a mesma experiência.

E é justamente esse tipo de detalhe que, quando corrigido, pode transformar uma experiência boa em uma experiência excelente.

Os pratos vieram acompanhados de duas porções de arroz, pedimos Coca-Cola com gelo e limão e seguimos o almoço.

Mas preciso confessar uma coisa.

Naquele momento, a comida já não era a única protagonista.

A paisagem tinha roubado a cena.

IMG 3983
Vista da Paisagem tirada do restaurante

Porque existe uma diferença entre simplesmente almoçar em um restaurante e almoçar em um lugar onde, entre uma garfada e outra, você olha para o lado e pensa:

“Que lugar bonito.”

E o Três Josés tem isso.

É uma experiência que conversa com um público que procura conforto, boa estrutura, natureza e uma atmosfera mais especial. O cardápio acompanha essa proposta, com pratos que ficam, em geral, naquela faixa de aproximadamente R$ 120 a R$ 200, dependendo da escolha.

Não é necessariamente um almoço casual para todos os dias.

É mais aquele tipo de programa que você escolhe quando quer transformar o almoço em um acontecimento.

E, quando tivemos os pontos de insatisfação com os pratos, a equipe foi muito receptiva. Se prontificaram a fazer a troca e ainda ofereceram uma sobremesa.

E isso diz muito.

Porque restaurante nenhum precisa ser perfeito.

Mas um bom restaurante precisa saber ouvir.

E, naquele domingo, eles souberam.

Saímos de Piracaia e seguimos de volta para Atibaia.

Mas o dia ainda não tinha terminado.

Fomos parar na Festa do Morango, no coração da cidade, no meio daquela mistura deliciosa de gente, música, comida e cheiro de coisa boa vindo de todos os lados.

E, porque aparentemente um almoço nunca é suficiente quando o assunto é domingo, ainda encontramos um hambúrguer daqueles que merecem uma cena própria.

Não lembro o nome.

Mas lembro do sabor.

E talvez isso seja uma das melhores formas de avaliar alguma coisa: quando o nome desaparece, mas a memória fica.

À noite, para encerrar o dia, fomos à Temakeria, em Atibaia.

E foi ali que fechamos o domingo do jeito que ele começou: em volta de uma mesa.

Comida japonesa, conversa, risadas e aquela sensação boa de que o dia tinha sido muito maior do que o plano inicial.

E talvez essa tenha sido a grande lição desse domingo.

A gente saiu de casa pensando que sabia exatamente para onde estava indo.

Não sabia.

Ainda bem.

Porque se tivéssemos seguido o roteiro original, talvez tivéssemos apenas comemorado um aniversário.

Mas um pequeno desvio nos levou até Piracaia, a um lago, a uma pousada, a uma mesa com quatro pessoas, a pratos que renderam elogios e críticas, a uma equipe que soube ouvir, a um hambúrguer cujo nome eu sequer lembro e, finalmente, a um jantar japonês em Atibaia.

No fim, talvez a vida seja um pouco isso.

A gente faz planos para chegar a algum lugar.

E, de vez em quando, alguém vira o volante.

É nesse momento que a história começa.

E talvez os melhores domingos sejam justamente aqueles que a gente não consegue explicar completamente depois.

Só consegue lembrar.

E sorrir.

Veredito

O Três Josés vale a visita principalmente pelo conjunto da experiência: paisagem excepcional, ambiente sofisticado, clima de refúgio e um atendimento que soube acolher bem os pontos de insatisfação. A comida teve bons momentos, mas apresentou falhas de execução que pesam mais quando se considera a faixa de preço, especialmente na textura do escondidinho e no ponto irregular da parmegiana. Ainda assim, é um lugar que eu indicaria para ocasiões especiais, sobretudo para quem valoriza tanto o cenário e a atmosfera quanto o prato.

Compartilhar

Quer a sua marca numa resenha assim?

Falar no WhatsApp